Exaltação da Santa Cruz
Nossa glória está na Cruz de Jesus

“Assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna.”


O caminho da cruz está sempre presente. É preciso ter perseverança, pois o sofrimento muitas vezes nos amadurece e faz crescer, carregando a minha cruz com amor.

Festa da Exaltação da Santa Cruz, estabelecida antes do século V, logo depois da dedicação da Basílica da Ressurreição, em Jerusalém. Hoje dia 14 de setembro, a liturgia da nossa Igreja celebra a festa da Exaltação da Cruz. O fiel é convidado a penetrar as profundezas de um  amor que chegou aos extremos (Jo 13,1), louvando, agradecendo, exaltando. Não podemos restringir a nossa contemplação ao aspecto doloroso e trágico dessa bendita e louvada Cruz, da qual pendeu a salvação do mundo. Ficamos chocados e até, revoltados diante dessa ignominiosa crueldade de condenar um Inocente através do suplício degradante e humilhante, que era reservado aos escravos mais vis e revoltados, os bandidos e salteadores. Queremos engrandecer o heroísmo máximo de quem morreu pelas mais nobres causas, escancarando o acesso à salvação para todos. Sempre olhamos para o Crucificado com certa tristeza... Além de ter diante dos olhos a imagem mais cruel do Homem das Dores, vem-nos à lembrança a causa de tanto sofrimento: os pecados todos desde Adão até o final dos tempos estão retratados ali, naquela imagem de um transfigurado pela dor, ingratidão, pela paixão e pelo sofrimento da humanidade toda. O profeta Isaías, nos Cânticos do Servo de Javé, havia profetizado: O mais belo dos homens perdeu toda a sua beleza. Não mais parece nem mesmo gente. Aparece como golpeado, humilhado, desonrado e triturado (Is 53,5).

Contudo, os Santos viam n´Ele a suma beleza, o maior objeto de esperança, a figura santa e verdadeira do homem novo. Desta forma, a Cruz será o grande contraste, o desafio por definição. Por um lado demonstra a maldade do ser humano e, por outro, a grandiosidade do amor do Pai que não poupou a seu próprio Filho (Rm 8,32) e de Cristo, que demonstra ali o maior amor pelos amigos, morrendo por eles (Jo 15,13). O Crucificado é, efetivamente, o centro da História humana. É naquela hora – a HORA entre as demais horas – que se realiza a plenitude dos tempos (Ef 1,10 e Gl 4,4) Jesus havia confidenciado, que naquela hora iria atrair tudo para si.

De fato tudo se agrupa ao redor da Cruz; os povos que andam nas trevas e os que avançam ao clarão da luz eterna; a história de cada pessoa e do universo todo adquire pleno sentido à sombra dessa Cruz. É por isso, que São Paulo nos fala do mistério da Cruz como o mistério central, o centro de toda a ciência e sabedoria. O Crucificado, no mistério de sua Paixão e Morte nos assegura o aprendizado dos seus inesgotáveis tesouros de sabedoria e ciência. Achegando-nos ao Crucificado, contemplando-o com profunda compenetração, tornamo-nos seus alunos e, se formos dóceis aos seus ensinamentos, tornamo-nos seguidores dos seus passos todos... até mesmo dos ensangüentados. A Cruz está de pé, enquanto o mundo gira, cantava-se em séculos passados, aparecendo, assim, a Cruz como a rocha firme, o baluarte que não treme diante das coisas que passam. Ela é estável e firme! Ela está firme enquanto os acontecimentos humanos se desenrolam a seus pés, transformados pelo sangue redentor, pelo benefício de um amor eterno. A Cruz é também o grande sinal da esperança última: Verão aparecer sobre as nuvens o sinal do Filho do Homem (Mt 24,30).

Os cemitérios, as lápides sepulcrais quase todas estão assinaladas pela Cruz. É a certeza de que aqueles que “morreram em Cristo, também ressuscitarão com Ele” (Rm 6,4). A Cruz atravessa as sombras da morte, os muros do desconhecido mundo do Além, e abre novas esperanças, a visão preanunciada de uma vida nova de felicidade eterna: agregação conjunta de todos os bens e alegrias, amizade transformante com Deus, imersão na sua glória. A Cruz, dizíamos, se nos apresenta como um grande contraste, um verdadeiro choque. Ali se defrontam o ódio máximo e o amor maior; o aparente fracasso e a vitória final, já iniciada; a justiça e a misericórdia; as luzes e as trevas; a tristeza da morte e o borbulhar das “fontes da alegria de salvação” (Is, 12,3). A Cruz nos estimula ao sacrifício, ao heroísmo e ao martírio. Nela os missionários de todos os tempos encontravam inspiração e impulso evangelizador. Todos os inumeráveis mártires de ontem e de hoje encontravam nela o ideal e a força para o sofrimento e para o enfrentamento da própria morte, qualquer que fosse a Cruz, ainda hoje, nos irmana na solidariedade com os que sofrem: doentes, encarcerados, injustiçados, excluídos... Para todos eles (e para nós também) o Crucificado é a resposta: Não temais eu venci o mundo (Jo 16,33). Ao nos persignarmos com o sinal do cristão – como aprendemos desde o Catecismo – professamos a nossa fé que brota da Cruz e nela se consuma como vitória final. Não percamos o lindo costume de enriquecermos as salas de estar, salas de aula, de decisões maiores, estabelecimentos públicos – com a figura nobre e, ao mesmo tempo, triste do Crucificado. É perene apelo à justiça e honestidade. É garantia de acerto. Ao contemplarmos um pouco mais de perto o Crucificado, entenderemos melhor os segredos de Jesus e teremos mais coragem para enfrentar os contratempos do dia-a-dia e nossos olhos penetrarão nos abismos do Amor... A Cruz é uma das grandes maravilhas de um amor sem limites e sem explicações, de um amor humano-divino de total doação.

“Deus quer que o religioso seja de tal maneira que tenha acabado com tudo e que tudo tenha acabado para ele, pois o mesmo Deus deseja ser sua riqueza, consolo e glória deleitável.”

 


São João da Cruz – Carta 9



“Certa vez, estando a cruz na mão, que eu trazia num rosário, o Senhor a tomou em Suas mãos e, quando me devolveu, esta estava formada por quatro pedras grandes, muito mais preciosas que diamantes, incomparáveis, pois quase não se pode comparar o visível com o sobrenatural; diante das pedras preciosas lá de cima, o diamante parece pedra falsificada e imperfeita. As cinco chagas estavam formosamente cravejadas na cruz. Disse-me Ele que eu sempre veria a cruz dessa maneira, o que aconteceu: eu já não via a madeira de que era feita, e sim essas pedras – mas só eu o via.”
 

Santa Teresa de Jesus – V 29,7