Dom Fernando

 

Verdadeiros discípulos

Texto Bíblico: “...” Mateus 7,21.24-29

 

Aos olhos de Jesus, não escapava o andar arrogante dos doutores da Lei, que mantinham uma atmosfera de falsa piedade e de formalismos cultuais. Sem desprezá-los, mas querendo preservar os Apóstolos desse perigo, recomenda-lhes: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus”. Para ser salvo, não basta aparentar piedade, é necessário ter fé. Fé autêntica, fundada no cumprimento da vontade do Pai e na prática do bem.

Por conseguinte, dizer Senhor, Senhor, é comprometer-se a viver de acordo com os ensinamentos de Jesus e a testemunhar a sua mensagem. É a vida do discípulo que dá consistência e respaldo à sua palavra, é ela que lhe permite desdobrar suas possibilidades humanas e ser conduzido à luz e à “glória” do Tabor. Aliás, esta não lhe é estranha, pois, segundo Orígenes, “todo homem é por natureza templo de Deus, e foi criado para acolher em si a glória de Deus”. Não há santidade sem que se participe fortemente da vida. Caso não haja essa correspondência, as palavras do discípulo tornam-se uma fala sem conteúdo, e ele não estará participando realmente da vida de Deus. Porque a Palavra de Deus, embora eficaz nela mesma, não dispensa jamais a colaboração do homem. Deus permanece, ousamos dizer, à espera de sua decisão, ato livre de sua vontade.

Após salientar esses importantes aspectos da vida e da espiritualidade cristã, Jesus nos fala da necessidade de construirmos nossa casa espiritual não sobre a areia, mas sim sobre a rocha. O modo como edificamos torna-nos capazes ou não de sobreviver às tempestades, que nos advirão no decorrer de nossa existência.

Mas o simples fato de o Mestre subentender que a casa está em fase de construção traz-nos consolo e tranquilidade. Pois anteriormente, ao proclamar os preceitos do Sermão da Montanha, suas palavras soavam como se nós devêssemos cumpri-los imediatamente e de uma só vez.  Agora, Ele abre os horizontes e nos permite compreender que temos a vida toda para trilhar a via estreita da perfeição e construir nossa morada espiritual, pedra por pedra. Pois o homem, apesar de permanecer homem, no dizer de Máximo o Confessor, “é inteiramente iluminado, na alma e no corpo, mediante a graça e o divino esplendor da glória que o penetra paulatinamente”. Do homem sempre se requer uma decisão firme e resoluta.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM