Dom Fernando

 

Ninguém vos tirará vossa alegria

Texto Bíblico: “...” João 16,20-23

 

Perante a possibilidade da morte, o homem, exposto à presença do nada, sente-se angustiado. Quisera abranger o mundo, mas o tempo, que emoldura o horizonte de sua vida, é fugaz. Um suspiro nasce d’alma, ao erguer-se diante de seus olhos o mistério da morte, mistério que o supera e o ameaça.  Assim, o anúncio da morte iminente de Jesus vai muito além do círculo dos Apóstolos. Eles escutam-se no silêncio de seus corações e leem nas palavras de Jesus um convite à confiança e ao amor. Vacilam, entretanto, em abrir seus corações. Percebendo a indecisão deles, Jesus os consola e leva-os a pressentir a esperança do nascimento para uma vida nova, proclamada por sua ressurreição de entre os mortos. A ruptura e a separação, causadas pela morte, trazendo angústia e tristeza, são suplantadas pela alegria interior, causada pela felicidade pascal. A oposição entre vida e morte é vencida pela ressurreição, porta de entrada da beleza e grandeza da vida na glória eterna e feliz do Pai. 

Atento aos sentimentos de seus discípulos, que hão de se entristecer com a sua morte e o término de sua missão terrena, Jesus lhes diz: “Chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará”. E, consolando-os, acrescenta: “Mas a vossa tristeza se transformará em alegria”. Não uma alegria passageira e efêmera, mas ele os conduz à verdadeira alegria (eis cháran), à sua própria alegria, fruto do amor e que S. Francisco de Assis denomina “alegria perfeita”. Cume da purificação interior e prelúdio da perfeição escatológica. Os Padres gregos falam de serenidade (apátheia), à qual S. João Clímaco se refere como “virtude que é o paraíso na terra”.

Ao longo dos seus ensinamentos, Jesus volta a falar da alegria. A alegria, comunicada por Ele aos seus discípulos, emerge como expressão do amor e desabrocha como doação generosa e ilimitada aos irmãos. Então, ela se transfigura e o Ressuscitado lhes permite atingir a serenidade (apátheia), “a alegria, que ninguém vos tirará”. Momento sublime, em que o espírito humano alcança sua integridade e vive a “sobriedade” (nepsis) e o discernimento (diákrisis) na união com Deus.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM