Dom Fernando

 

Encontro com Nicodemos (II)

Texto Bíblico: “...” João 3,16-21

 

Era noite, quando Nicodemos vai à procura de Jesus. No diálogo que se estabelece entre eles, Jesus o convoca a nascer “de novo”, que para o evangelista S. João significa nascer “do alto”. Trata-se de participar de algo que supera a realidade terrena, não se deixando determinar por ela. Quem nasce da carne e nela permanece, enclausura-se, no dizer dos monges do deserto, no egoísmo, na ganância e na cobiça. Mas quem nasce do alto obtém a adoção de filho de Deus e participa, lembra S. João Crisóstomo, “da abundância da graça, tão desejada pela humanidade”.

Ao ouvir Jesus falar do Filho do Homem, que será levantado como “Moisés levantou a serpente no deserto”, Nicodemos percebe a sugestão do Mestre: destacar-se de seus esquemas e sistematizações e partir para o deserto. Trata-se de ele tornar-se nômade de Deus em sua consciência e coração, pois o verdadeiro deserto é interior.  Ele compreende que a comunhão com Deus é vida e luz, e que é preciso se lançar na liberdade humano-divina, oferecida a ele por Jesus. Mas por que a cruz? Sente-se confuso diante do Mestre que vem a ele na soberana liberdade de sua entrega ao Pai, selada mais tarde pela cruz. Portanto, o encontro permite-lhe intuir que, em Jesus, o muro de separação entre Deus e o homem, entre céu e terra, não existe. Então, liberto da justificação pela Lei, ele ouve as palavras consoladoras de Jesus: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. Diríamos que, como S. Paulo, escamas caem de seus olhos e ele compreende que fé é saber-se amado e é responder ao amor com o amor, que não é fruto do esforço humano, mas graça e dom divino.

Realiza-se o que o próprio Senhor lhe disse: O Filho do Homem, vindo a nós, permite-nos chegar ao Pai, como filhos, no “Unigênito” de Deus. A expressão “nascer do alto”, que lhe parecia incompreensível, adquire sentido e significa acolher a liberdade. Não uma liberdade filosófica ou política, mas a liberdade da Lei, do pecado e da morte, que ele jamais obteria por suas próprias forças. A liberdade é vista por ele como êxodo da escravidão e entrada na condição de filho de Deus.  Do coração de Nicodemos, brota uma visão nova, que o vincula às manifestações de Deus, sempre diversas e surpreendentes. A humildade, a simplicidade e a doação generosa de Jesus o convocam à abertura originária de sua vida ao inefável mistério do amor do Pai. E no escândalo da cruz, ele lê o “enaltecimento” de Jesus e, atraído por Ele, vê-se participante da vida divina, integrando-se, como filho amado, no “Reino de Deus”. Seu desejo, também o nosso, é viver “na liberdade dos filhos de Deus”.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM