Dom Fernando

 

Felizes porque veem

Texto Bíblico: “...” Mateus 13,16-17

 

Neste breve relato, Jesus fala do Reino que está chegando: sua instauração se realiza mediante aqueles que veem e conhecem os seus ensinamentos. A afinidade entre os verbos ver e conhecer é grande, sobretudo, nos escritos de S. João, que declara: “Todo aquele que permanece em Cristo não peca. Todo aquele que peca não o viu nem o conheceu” (1Jo 3,6). A fé consciente daquele que conhece Cristo, não é um fato momentâneo; radica-se no profundo entendimento de quem saboreia essa verdade revelada por Ele, pois para ser verdadeiramente seu discípulo é preciso aderir à sua mensagem, não apenas superficialmente.

Neste contexto, Jesus chama os discípulos de “bem-aventurados”, porque eles veem o que a outros escapa; eles admitem, na fé e na esperança, o que não é aceito por alguns, que se surpreendem pelo fato de Ele se identificar com o Servo sofredor, segundo a profecia de Isaías (Is 53). Clemente de Alexandria e, mais tarde, Orígenes referem-se ao “ver” e ao “conhecer”, colocando-os em planos diversos, para caracterizar a existência de dois níveis de seguidores de Jesus: a grande massa de cristãos incultos, presos a uma fé elementar, e os cristãos eleitos, iluminados graças a um aprofundamento da Sagrada Escritura. Essa mesma distinção aparece na comunidade de Corinto, ligada à pretensão de certas prerrogativas e de uma especial liberdade, defendidas por alguns de seus membros. Essa distinção caracterizava a falsa gnose, claramente rejeitada por S. Paulo, que, como S. João, declara que Cristo não transmitiu um complexo de doutrinas, mas que a sua mensagem era Ele próprio, de modo que ambos os termos, ver e conhecer, terminam por se identificar em sua pessoa.

Jesus é o Servo sofredor que proclama a Palavra de Deus; Ele é o profeta por excelência, que revela a Israel o cerne da Lei: renunciar ao princípio “olho por olho, dente por dente”, para efetivar, no amor ao próximo, que não tem limites, a “regra áurea”: “Tudo o que quereis que os outros vos façam, fazei o mesmo a eles”. Por aí se entende o novo mandamento de Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”, como portador de vida para a humanidade toda inteira, levando-nos à ousadia de dizer: assim como existe algo eternamente humano em Deus, também existe algo de divino no ser humano, que o orienta para a comunhão ou para a visão do Deus vivo. Nesse sentido, dizia S. Irineu: “A glória de Deus é a vida do homem e a vida do homem é a visão de Deus”.

 

Comemoração

São Joaquim e Sant’Ana

 

Hoje festejamos os pais de Maria Santíssima. Uma antiga tradição, com raízes no século II, atribui-lhes o nome de Joaquim e Ana. Independentemente deste fato, a celebração se liga intimamente à realização do mistério de Cristo, nascido da Virgem Maria. O ofício divino traz, em sua segunda leitura, um texto de S. João Damasceno (749), considerado o último dos Santos Padres do Oriente. Sendo monge, ele foi ordenado presbítero pelo Patriarca de Jerusalém João V. Pelos inúmeros escritos, pela amplidão dos temas tratados e, particularmente, pela santidade de vida, ele é considerado um dos teólogos mais notáveis da Igreja oriental. Entre os seus escritos destacam-se os que se referem à Mãe de Deus, nos quais se encontram riquíssimas informações hauridas de tradições antigas a respeito da vida de Maria. Ele fala dos seus pais, nomeando-os Joaquim e Ana. Eis um belo trecho da sua obra:

“Ó casal feliz, Joaquim e Ana! A vós toda a criação se sente devedora. Pois foi por vosso intermédio que a criatura ofereceu ao Criador o mais valioso de todos os dons, isto é, a mãe pura, a única que era digna do Criador. Alegra-te, Ana ‘estéril, que nunca foste mãe, exulta e regozija-te, tu que nunca deste à luz’ (Is 54,1). Rejubila-te, Joaquim, porque de tua filha nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; o nome que lhe foi dado é: Anjo do grande conselho, salvação do mundo inteiro, Deus forte. Este menino é Deus”.

Mais adiante, ele proclama: “Ó casal feliz, Joaquim e Ana, sem qualquer mancha! Sereis conhecidos pelo fruto de vossas entranhas, como disse o Senhor certa vez: ‘Vós os conhecereis pelos seus frutos’ (Mt 7,16). Gerastes para o mundo a mãe de Deus, que foi mãe sem a participação de homem algum. Levando, ao longo de vossa existência, uma vida santa e piedosa, gerastes uma filha que é superior aos anjos e agora é rainha dos anjos. Ó formosíssima e dulcíssima jovem! Felizes o pai e a mãe que te geraram!”

S. João Damasceno, após essas belíssimas páginas de louvor àquela que foi o fruto precioso do matrimônio de Joaquim e Ana, conclui exaltando a beleza e a grandeza da santidade do casal, celebrado hoje pela Igreja em todo o mundo.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM