Dom Fernando

 

A nova justiça é superior à antiga

Texto Bíblico: “...” Mateus 5,20-26

 

A justiça evoca as boas relações entre os homens e entre eles e Deus. Neste sentido, Jesus estabelece princípios, que inspiram os filhos de Deus a vencer o mal pelo bem e amar os próprios inimigos. Daí sua recomendação: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos céus”. Não se trata apenas da justiça distributiva, dar ao outro o que lhe é devido, mas, sobretudo, do “ser justo”, ou seja, da relação harmoniosa do homem com Deus, concretamente, demonstrada no amor e respeito ao próximo de acordo com os ensinamentos da Aliança divina. Por isso, de modo enfático, Jesus proclama: “Não matarás, aquele que matar terá de responder em juízo”. De fato, por ser um ato contra o próprio Deus, à imagem do qual todo ser humano foi criado, é impensável tirar, de modo voluntário, a vida de alguém. S. Gregório de Nissa dirá que o ser humano é “imagem viva de Deus”, não apenas em seu ser espiritual, mas também em seu ser corpóreo, pois em seu ser único e indiviso, o homem reflete Jesus Cristo, face humana de Deus.

Consequentemente, o ato de matar manifesta a ousadia de querer “se apoderar do que é de Deus, sem Deus”, destruindo o ser humano, que é a porta de entrada da graça divina no mundo criado. Alguém pode prejudicar o outro, seja de forma física, mental ou espiritual. Por isso, logo adiante, Jesus acrescenta que mesmo “aquele que se encoleriza com seu irmão é réu em juízo”. O Mestre, que veio para trazer salvação e felicidade a todos os seres humanos, que Ele criou para a vida, transfere o centro de importância, da ordem ritual e jurídica para a esfera moral e espiritual, o que provoca uma profunda mudança: exige-se abandonar o egoísmo e toda expressão de ódio, e abrir o coração à dedicação misericordiosa ao próximo.

Seu desejo é instalar no coração humano, para além do crime e do castigo, a comunhão fraterna, pois o pecado, semelhante a uma semente, cresce e se desenvolve, pouco a pouco, a menos que não seja superado e destruído pela graça de Deus, fogo divino, que o purifica de seus vícios e estabelece a vitória do amor e da força vivificante de Deus. Assim, de modo direto e compassivo, Ele conduz à fonte originária da vida cristã: a caridade. Se ela estiver presente na vida dos seus seguidores, eles jamais irão tirar a vida de alguém, tampouco se deixarão encolerizar contra seu irmão. S. Agostinho exclama: “Vivamos o amor e façamos o que quiser! ”. Pois quem ama jamais ofenderá o irmão e não deixará de corresponder às exigências do Evangelho.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM