Dom Fernando

 

O jovem rico

Texto Bíblico: “...” Marcos 10,17-27

        

       Com olhos ansiosos, como pessoas movidas por desejos intensos, um jovem procura Jesus. Não deseja segui-lo; o intuito é de assegurar-se da salvação: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna? ”. A pergunta sugeria a ideia de ele julgar ser possível alcançar a salvação mediante as obras. Após olhá-lo em silêncio por algum tempo, procurando fazê-lo passar de uma visão cultual e legalista a uma visão moral-espiritual, Jesus lhe diz: “Por que me perguntas sobre o que é bom? O Bom é um só”. Ninguém é bom, senão só Deus. E conclui: “Se queres entrar para a Vida, guarda os mandamentos”. Ao ouvi-lo responder que não só conhece, mas também observa os mandamentos, com um olhar de afeto por ele, o Mestre lança um desafio: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus”.  

       O episódio gravita ao redor das posses materiais de um jovem de família rica. Guiado talvez pela ideia de que as riquezas e o sucesso terreno são sinais das bênçãos divinas, ele julga que a porta de acesso ao céu está vinculada ao sucesso e aos bens materiais. Por essa razão, S. João Crisóstomo não o considera como alguém movido por más intenções ou “ser ele avaro e escravo do dinheiro”. Talvez, dominado por uma mentalidade materialista, e sendo presunçoso, ele estaria colocando sua confiança, prevalentemente, em si mesmo e em seus bens: o Reino de Deus pelas posses materiais, em vez do Reino de Deus pelo desapego e liberdade interior. Mesmo o fato de chamar Jesus de “bom Mestre”, levanta a suspeita de ele estar nutrindo a esperança de ganhar, através do agrado e do elogio, os bens eternos.

       Após ouvi-lo pacientemente, o Mestre, através de questões e breves sugestões, busca elevar o pensamento do jovem a um ponto de vista sobrenatural. De início, destaca a validade do Decálogo, para só então conduzi-lo a ser perfeito e a ter um tesouro nos céus: ir, vender tudo o que tem, e dar aos pobres. Surpreso, ele ouve as palavras do Senhor, que o coloca diante de uma escolha: aspirar por coisas mais altas, mediante a renúncia aos bens materiais, como os Apóstolos, ou continuar o seu caminho, mantendo suas riquezas e posses materiais. Sua decisão é imediata. Ele se retira, vai embora, o que faz S. Agostinho exclamar: “Quanto se deve amar a vida que não terá jamais fim! Tu que amas esta vida na qual sofres e te afliges, em meio a tantas preocupações, busca a vida eterna, onde não suportarás estes sofrimentos, mas reinarás eternamente com Deus”.

      Esta passagem bíblica permite-nos compreender que além da observância dos mandamentos de Deus, válidos para todos, alguns podem ser chamados a seguir os conselhos evangélicos, e a viver em radicalidade o preceito do amor a Deus e ao próximo. Aliás, desde os primeiros anos da vida da Igreja, observa-se que a renúncia aos bens materiais não é um preceito obrigatório para todos. Obrigatório é ser livre em relação a todos os bens. Nos Atos dos Apóstolos, S. Pedro dirige-se a Ananias, que reservara para si uma parte do preço do campo, e lhe pergunta: “Por acaso não podias conservá-lo sem vendê-lo? E depois de vendido não podias dispor livremente da quantia? ” (5,4).

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM