Padre Marcelo Rossi
 

 

Dom Fernando

 

Jesus e a samaritana

 

Texto Bíblico: “...” João 4, 5-15.19-26. 39-42


Os quatro Evangelhos, canônicos desde a metade do 2º século, dividem-se em duas partes, Mateus, Marcos e Lucas em um grupo e o Evangelho de S. João, isoladamente, em outro. Os três primeiros são denominados sinóticos por se prestarem a uma visão conjunta, isto é, cada um apresenta uma grande parte em comum com os outros, não só quanto ao conteúdo, mas também no modo de relatá-lo e de expressá-lo. O mesmo não acontece com o Evangelho de S. João, que difere notadamente dos demais, razão pela qual, Clemente de Alexandria o designa como Evangelho “espiritual”.

Se os sinóticos apresentam Jesus como o anunciador do Reino de Deus, em S. João, Jesus anuncia a si mesmo, melhor, Ele se revela como aquele que, pelo fato de assumir nossa humanidade, inclui nele todos nós. Se o evangelista S. João sublinha expressamente a divindade de Cristo, ele é também aquele que melhor certifica a realidade de sua humanidade. Mais do que os outros, ele traça o rosto humano de Jesus. Deveras, no seu Evangelho, deparamos com Jesus, “fatigado da caminhada” que Ele tinha feito, comovendo-se e chorando diante do túmulo do amigo Lázaro e tantos outros exemplos. Os relatos bíblicos irradiam sua união conosco, em uma solidariedade não só moral, mas também real, ontológica, de modo que não podemos nos sentir abandonados e excluídos, pois vindo a nós, Ele “fornece à natureza humana, por meio de seu próprio corpo, o princípio da ressurreição, ressuscitando com o seu poder todo homem” (S. Gregório de Nissa). Ao assumir nossa humanidade, incluindo-nos nele, Ele nos eleva à comunhão perpétua com o Pai. Nele, todos nós podemos receber e beber “a água viva”, que jorra para a vida eterna.

O Evangelho de hoje relata-nos que “fatigado, Jesus sentou-se junto ao poço”. Exclama S. Agostinho: “Estamos à porta dos mistérios: não é por acaso que Jesus se fatiga, não é por acaso que se fatiga o Poder de Deus. Não se fatiga por acaso, aquele cuja ausência nos esgota, cuja presença nos fortalece. E, no entanto, Jesus se fatiga (...). Queres conhecê-lo fraco? O Verbo se fez carne, e habitou entre nós. O Poder de Cristo te criou, a fraqueza do Cristo te recriou. A força de Cristo fez que o que não existia, existisse; a fraqueza do Cristo fez que o que existia não perecesse. Por seu poder ele nos criou; por sua fraqueza eles nos procurou”. Naquele instante junto ao poço Ele procura. Mas a quem? “E eis que uma mulher samaritana chega para buscar água”.

As mulheres normalmente iam à fonte nas primeiras horas da manhã enquanto não se fazia muito calor. Porém, aquela mulher escolheu o meio-dia para escapar do contato público. Jesus não a rejeita, nem demonstra qualquer estranhamento, mas, rompendo as barreiras de nacionalidade e os costumes rígidos do judaísmo, proclama que o Evangelho é para todos. Àquela mulher estrangeira e pecadora, suas palavras demonstram carinho e misericórdia, pois ninguém está impedido de alcançar a salvação, não se nega a ninguém o amor generoso e gratuito de Deus. Criada por nós, a única barreira possível é o pecado, que se expressa no orgulho obstinado e na rebelião determinada.

O poço de Jacó na Samaria é bastante profundo, de sorte que S. João, só ele, o chama de fonte, o que ele é de fato, apesar de sua profundidade. Ao pedir água à samaritana, Jesus refere-se não só à sede física, mas, como comenta S. Agostinho, “aquele que pedia de beber tinha sede da fé daquela mulher”. Sede bem maior que vai além da água da fonte e que só é saciada pelo Espírito divino, que, de escravos, torna-nos filhos adotivos, filhos de Deus. O Espírito é a água viva, oferecida por Jesus à Samaritana, que aplaca a sede mais profunda de seu coração e a leva, observa S. João Crisóstomo, “a assumir o papel dos Apóstolos: anunciar a todos a vida nova, que é Jesus” (S. João Crisóstomo).

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM

Imprimir
Voltar