Dom Fernando

 

Cura do homem com mão atrofiada

Texto Bíblico: “...” Lucas 6,6-11

 

A cena da cura de um homem com mão atrofiada se passa numa sinagoga, em dia de sábado. Lá está Jesus, observado atentamente pelos escribas e fariseus, que desejavam “ver se ele curaria no sábado, para assim encontrarem algo com que o acusar”. Buscam motivos para justificar a condenação de Jesus, fato já consumado em seus corações. Guardando sempre a serenidade e sem se preocupar com os olhares maldosos dos que o cercavam, Jesus pede ao homem que venha para o meio da assembleia. Tenso, o homem aproxima-se e permanece de pé, diante do divino Mestre. É sábado, mas Jesus, sem tergiversar, num gesto de afrontamento, realiza o milagre. Como era costume seu, ele não condena seus inimigos, mas, desejando levá-los à conversão, questiona-os. Pergunta-lhes se é permitido, em dia de sábado, fazer o bem ou o mal, salvar sua vida ou arruiná-la. O silêncio dos fariseus prova sua obstinação. Não percebem que a intenção de Jesus é colocá-los diante do objetivo de sua missão: ser presença do bem.

Paradoxalmente, unem-se em Jesus o finito e o infinito, pois sendo verdadeiramente homem, limitado, ele revela, em sua liberdade, abertura ao ilimitado de Deus. Ao curar no dia de sábado, ele provoca os discípulos, sobretudo, os seus inimigos. Oferece perdão e restaura o homem de mão atrofiada, no desejo de que todos alcem voo em direção à misericórdia e ao amor gracioso de Deus. A reação é contrária. Os fariseus “enfureceram-se e combinavam entre si o que fariam a Jesus”. De modo decidido e livre, eles afastam-se de Deus. É o endurecimento (porósei) do coração. Atitude que atrai a “cólera” divina, demonstrada pela indignação de Jesus. “Correndo os olhos sobre todos eles”, ele os fixa com um olhar severo, ao mesmo tempo melancólico e suave, que reflete autoridade e plena liberdade interior.

Apesar da hostilidade dos inimigos, Jesus, movido por amor, diz ao homem: “estende a mão; e ela voltou ao estado normal”. Diz S. Ambrósio: “Também tu, que crês ter a mão sã, atingida, porém, pela avareza ou pelo sacrilégio, estende-a para o pobre que suplica, para ajudar o próximo, socorrer a viúva ou para corrigir a injustiça. Estende-a para Deus por todos os teus pecados e ela será curada”. Por entre esses atos, transluz a certeza do amor benevolente do Senhor por toda a humanidade. Juntos com S. Pedro Crisólogo podemos dizer: “Naquele homem, verifica-se a cura de todos, nele renova-se a salvação de todos, esperada durante tanto tempo”.

Dom Fernando Antônio Figueiredo, OFM